domingo, 5 de janeiro de 2025

Longa despedida

Há muito tempo que quero voltar a escrever. Tenho o blog parado há anos, nem sei bem quantos, nem sei porque parei.

 

Quando escrevo paro, escuto-me, pergunto-me sobre os assuntos que a cada momento sinto com maior intensidade. Nem sempre tenho respostas - quase nunca aliás. Mas ainda assim sei que se só será possível encontrar respostas se as procurar…

 

 …

 

Hoje estou de volta ao hospital, num quarto diferente, desta vez de uma cama só. A mesma cadeira, o mesmo sofá (onde escrevo), enquanto a minha Mãe foi comer o que a cafeteria tinha disponível - hoje, domingo, o restaurante está fechado, mas mesmo que estivesse aberto não sei se a minha Mãe teria apetite ou paciência para esperar por um prato e saboreá-lo; nestes dias, infelizmente, só precisamos de nos alimentar, não pensamos em saborear a Vida.

 

Acabou de voltar ao quarto - parece que comeu uma sanduíche de salmão, seguindo a sugestão que tinha provado meia hora antes. Há sempre frases longas, descritivas, para enriquecer as paisagens gastronómicas, mesmo nestes dias. O salmão era fresco e bastante, o pão de sementes era crocante mas duro, dando assim mais valor à sanduíche que já era a última. 

 

(parei: chegou o Luís, o meu Padrinho, que num abraço curto e com poucas palavras no prepara para um abraço mais longo que não tarda…)

 

Olho de novo para a cama… parece vazia, tão pequeno é o homem que ali se esconde. Não fossem os gemidos e a respiração ruidosa que à força e com esforço ativa o diafragma, poderia fingir que apenas os lençóis ali estavam. O homem que quase sempre vi erguido, orgulhoso, por vezes até austero, mal se equilibra, deitado entre o sono e a sonolência, incomodado pela fraqueza que se tornou demasiado forte.

 

Porquê?, é a pergunta que mais ecoa em mim!… Porque é que tudo não acabou antes, num qualquer sonho generoso que nos leva enquanto sorrimos? Porque é que o meu Pai tem de passar por esta tormenta sem retorno, esta luta sem vencedor, este infinito passar do tempo que de tão lento parece que não passa…

 

Não consigo sonhar com melhoras, novos episódios de qualquer tipo. Só consigo imaginar mais horas e dias do mesmo sofrimento ofegante, contagioso, cansado e cansativo. Já não o consigo imaginar de novo em casa, sentado no sofá de há tantos anos, encrostado em cinco almofadas que, com o aquele corpo franzino, fazem o puzzle que diariamente montou. Mal tem forças para pegar no copo de água, espessada para não se engasgar, vai lá ter forças para viver numa casa em que a distância entre o sofá e a casa de banho gera um cansaço digno dos mais valentes atletas olímpicos…

 

Sinto que resta esperar, aguardar o telefonema ou, com sorte, a mão dada, sempre fria, que se despede primeiro da força e depois da da Vida. Só peço que a despedida seja serena, sem dor, e que não demore se nada mais houver para contar.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Tempus fugit

Voltei ao blog - voltei à Caneta Digital! Dois anos e meio em silêncio, longe daqui... e às tantas longe de mim!

Não tenho tema específico, mas quis apenas escrever, voltar a escrever, documentar algumas novidades e procurar "reativar-me", para ver se não demoro dois anos a cá voltar. Vou, por isso, escrever sobre o "o João, o do meio e o outro", os meus três filhos que preenchem a casa e a Vida e que tanto nos ajudaram a manter a "normalidade" nesta pandemia tão extraordinária que tornou a nossa casa numa habitação realmente permanente!!

 

O João já não é uma criança - é um miúdo feliz e bem-disposto, cheio de humor, alto, magro e musculado, que acompanho nos treinos de Taekwondo duas vezes por semana. Começou a tocar guitarra há cerca de um mês e tem tocado todos os dias. Já sabe umas músicas que o Youtube lhe ensinou, mais viradas para o rock - Green Day, Scorpions, Metallica e outros congéneres! Embora tenhamos pena de ele ter deixado de tocar piano, para o qual tinha uma notável capacidade e sensibilidade, a verdade é que nunca tocou com tanto gosto como toca agora na guitarra - a minha Sigma, por sinal, que de minha já tem pouco ou nada!

O Henrique é também bem disposto, frequentemente feliz, embora mais introvertido do que era há uns anos - quem diria, hein?!? Adora ler os seus livros do Diário de um Banana ou similares, levando-os todos os dias para a mesa enquanto come, alheado do que se passa à volta (há vícios piores!...). Quer ir atrás dos amigos para todo o lado e por isso agora está a ter aulas de guitarra com o Francisco 'Nori' Noriega, às terças-feiras depois das aulas, na antiga Casa da Árvore. Amanhã vamos comprar-lhe uma guitarra Admira 3/4 em segunda-mão (via OLX) para ver se ele cumpre o prometido - que se tivesse uma guitarra mais adequada ao tamanho dele, "como a do Nori", que tocaria mais vezes por semana!... Veremos, mas não custa tentar!

O Pedro, o mais recente da ninhada, é um poço de felicidade e animação, cheio de brincadeiras que aprende na escola ou que - sem qualquer pudor - rouba aos irmãos mais velhos como se tivesse a idade deles. "Conheces o Joe? Qual Joe, Pedro? O Joe Mama!!!". E assim vai repetindo (ou papaguiando) as loucuras dos irmãos, rindo e contagiando-nos com a espontaneidade e irreverência que nele transbordam. Soma-se um volume quase infinito de mimo que nos exige mas que devolve em dobro,  embrulhado em beijos e abraços, e resulta uma família mais completa pela presença do "caganito". Adora identificar e desenhar letras, desenhar e pintar, ouvir histórias, brincar ao faz-de-conta, tomar banho, ajudar na cozinha, andar de bicicleta e claro, sempre que pode, ver televisão - algumas séries que pode ver com os irmãos ou os Power Rangers, os heróis dos últimos meses!


Todos dormem, incluindo a Ana que confundiu novamente o sofá com a cama, enquanto escrevo estas linhas na sala. Mas é quase uma da manhã... chegou a hora de me juntar a eles...

domingo, 30 de dezembro de 2018


(in)finito

Hoje, ao despedir-me da Praia do Baleal, soube que te tinhas despedido de uma parte de ti. Parei, gelado, por ti e pelo teu irmão, querendo abraçar-te em silêncio e chorar contigo as insuportáveis dores que todos estamos destinados a sentir.

Lembro-me bem quando soube que te arrancaram outro pedaço, sem dó nem piedade, sem misericórdia. Ontem foi certamente igual e igualmente injusto. Não posso - não quero! - imaginar não poder dizer adeus... pois a verdade é que não estando preparados fica sempre um adeus - um obrigado - por dizer! Mas nunca estamos preparados!... (senti-o com a partida da minha Avó, que tardei em visitar para lhe dizer quanto a queria comigo para sempre!...)

...

Deixo-te o que senti ao contemplar a praia imediatamente antes de regressar a casa - paz e serenidade perante o infinito oceano que de tão imenso nos confunde com mais um grão de areia. E nesse infinito, de tão grande, cabemos todos, os de hoje e os de sempre, os da matéria e os das memórias.

Grande abraço, irmão CNM

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Faz hoje 15 anos que concluí a licenciatura, com a apresentação e discussão do trabalho final de curso. Já trabalhava desde 1 de Agosto, tinha iniciado a pós-graduação em Transportes 10 dias antes, mas foi nesse dia que fechei o primeiro grande capítulo da minha vida... para logo de seguida escrever (contigo) muitos outros.

Não tínhamos casa, mas já estávamos a 'namorar' a zona que nos acolheu; não tínhamos nenhum dos três filhos que hoje tanto nos preenchem e completam, mas sabíamos que a primeira filha chamar-se-ia Mariana! Sabíamos que queríamos viajar e conhecer o Mundo. Sabíamos que já tínhamos Amigos para sempre, achámos que não íamos casar (era moderno só 'viver junto').

Hoje, depois de vivermos juntos há 14 anos, de estarmos casados há 12 anos, de sermos Pais há 11 anos, de termos mudado de casa, de termos mudado de empregos, cargos e funções, de termos trocado os Transportes pela Mobilidade, de termos conhecido algumas cidades do Mundo - juntos ou separados - estamos melhores!

Há 15 anos fotografei-te assim... igual a hoje... (caramba!... o tempo não passa mesmo por ti!).


Como serão os próximos 15, 30, 45...? ;-)

Nighty night! Sleep tight!

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Janafa rules

Escrevo pouco - muito menos do que devia -, mas há dias e dias, pessoas e pessoas. E tu Joana é uma das pessoas que merece, muito!

Janafa - há quase 22 anos entrei na faculdade para pouco depois te conhecer. Entre loucura, energia e determinação encontrei um miúda cheia de vida, rica em ideias, recheada de projectos e vontades, capaz de passar dos sonhos à acção e de construir momentos e memórias. Envolta em muita musicalidade, a nossa amizade foi ganhando forma e robustez, daquela que atravessa barreiras, dificuldades, anos e distância.

[...]

Pouco depois estávamos a passar um fim-de-ano tunal, cheio de música, de boa disposição, alheios a qualquer dificuldade, só atentos à Felicidade e aos Amigos. Lembras-te? Sim, já fomos novos!!!




















[...]

No dia em que fui viver com a Ana - 31 de Julho de 2004 - fomos juntos ver os The Swingle Singers (julgo que no Estoril ou em Cascais) - para depois abrir a porta da casa onde acabei por casar e ver nascer o meu primeiro filho. Lembras-te?

[...]

Há 9 anos estava lá, na Xafarica, como sempre tento estar, partilhando contigo a minha vida e deixando-te entrar na minha. Estavas feliz, ao rubro! Não é sempre assim que te vejo - também és a Joana calma, sonhadora, criativa e disponível para quem te chama, mas nesse dia só querias festejar, com Família e Amigos.



[...]

Sábado passado também estive contigo, com a Ana, rodeado de filhos e filhos, nós mais maduros, mais preenchidos mas com tanto para ver e fazer. Giro de ver - e mais importante - ainda a saber sorrir, de olhos virados para o Sol e para o Mar, com sempre gostaste!

Joana Afonso 39 e muitos

Hoje fazes 40 anos, mas para mim fazemos quase 22 anos de Amizade, de partilha, de acordes e melodias que ressoarão para sempre. Hoje é o teu dia, mas há um bocadinho que também é meu!!!

Mil beijos, Janafa - Parabéns! Que tenhas um dia à tua maneira!!

sábado, 5 de setembro de 2015

Grande moral

H: Mãe?, - mostrando a mais recente construção de LEGO - isto está óptimo ou está perfeito?!?

A auto-estima do rapaz não tem limites!

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

domingo, 7 de junho de 2015

Ao fim do dia

Por pouco hoje não fotografava!

Levei a máquina comigo - como quase sempre o faço -, mas passei grande parte da tarde agarrado a um produto sem pilhas, sem baterias, sem ecrãs, sem botões, sem cartões de memória onde se pode escrever e reescrever o presente.

Sem fugir da fotografia hoje estive a ler um livro sobre a história de Sebastião Salgado, alguém de quem admiro o trabalho mas nada mais sabia a seu respeito! «Da minha terra à Terra», uma viagem desde um local remoto em Minas Gerais, onde nasceu, para se tornar um documentador do Mundo! É fantástico conhecer um pouco da pessoa e da forma de trabalhar que consegue dar vida ao papel, apenas com tons de cinzento escolhidos a rigor entre o preto e o "nada" que deixa revelar a palidez do papel.

Vou a meio do livro, mas sei que não tardarei a terminá-lo!


No final do dia, pouco antes de sair da Ulgueira, uma flor chamou-me, num momento verdadeiro que, ao cair da noite, já não têm raios de luz mágicos ou sombras que agigantam o tamanho dos mais pequenos seres. Sem ilusionismo nem feitiçaria, vi uma flor, uma borboleta, uma carantonha assustadora, um louco de óculos escuros e bigode, seguido por um fiel e leal súbdito, mais baixo, mais pequeno, mas sempre próximo e presente. E nesse momento fui buscar a máquina, tirei-a do saco, preparei-a para o "retrato", baixei-me, olhei, mexi-me, olhei, esperei, pensei, olhei, decidi e disparei.

Não revi a fotografia no local, não quis ser "moderno"! Quis antes ser como ele, como o grande Salgado que viajara meses sem poder ver os segredos que os seus olhos guardaram numa esquisita emulsão química, mágica e sinistra, reveladora de um passado não repetível. Naqueles dias, a decisão era tomada antes de disparar, não depois de "testar" e olhar para o pequeno ecrã que ajuda mas que vicia, que inibe uma enorme exigência e a máxima atenção ao momento. Não me quero comparar a ele (quase poderia dizer Ele), quero apenas (re)aprender a pensar a fotografia, a gerir quando não disparar, a saber antecipar quando o momento não valerá a pena!

Pode ser uma simples flor, mas para mim hoje valeu a pena esperar! E irei olhar para esta flor quando lá voltar, e irei perguntar-lhe o que mudou desde o dia em olhei para ela com olhos de ver.


sábado, 10 de janeiro de 2015

Out of office...

As coisas que se podem fazer quando não se está no trabalho...

...fotografar os filhos em casa...


... ou no parque, a brincar...


... ou a ver os outros brincar...


... ou a confortar os novos amigos que chegaram embrulhados.


Ver os filhos aproveitar os últimos raios de Sol do ano...


... brincar (mal) às escondidas...


... denunciar a brincadeira...


... pousar para o fotógrafo...


... ou em grandes perseguições...


... e a serem imitados à distância!


Tão simples... tão bom!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

October


October
And the trees are stripped bare
Of all they wear
What do I care

October
And kingdoms rise
And kingdoms fall
But you go on

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Manos


Sei que parece apenas um abraço, momentâneo e provocado. Mas a beleza é que surgiu, espontânea e naturalmente, entre lutas e correrias, quando pedi para se colocarem lado a lado para uma fotografia (em contra luz). O abraço surgiu, e ficou.

No jogo dos dias, com o João a procurar de forma crescente um lugar dominante e o Henrique a pedir atenção e a demonstrar a sua enorme vontade de ser o centro do mundo - principalmente perto do irmão - foi numa praia ventosa que resolveram, cúmplices, fazer uma caçada às gaivotas que pareciam habituadas a loucas aterragens com ventos cruzados. Com um "inimigo" comum, deixou de fazer sentido gladiarem-se mutuamente.

A verdade é que, com o passar do tempo, a cumplicidade tem vindo a aumentar, a tornar-se mais palpável, mais visível, embora não livre de zangas e confrontos. Mas há mais brincadeiras conjuntas, mais momentos partilhados, maior partilha de espaço (partilha de objectos ainda não é fácil, principalmente com o Stitch que o Henrique tanto cobiça...).

Com tempo e sorte, espero que sejam amigos, os melhores amigos, e que surjam abraços de saudades, de amizade, de respeito e de carinho, para os momentos que, tantas vezes, só partilhados sabem a Vida. Hoje guardei este único abraço, mas espero ver e guardar muitos mais.

Pai.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O beijo que hoje não te dei...

Avo Isilda
Acordei como em tantos outros dias, apressado para sair de casa mas cansado de uma noite mal dormida. Mas o dia de hoje prometia ser especial - era o Dia do Pai.

Tinha planeado levar o João e o Henrique à escola, seguir com o portátil para um café e trabalhar duas horas, ir assistir ao teatro do Henrique e, se sobrasse tempo, iria visitar a minha Avó ao lar antes do almoço.

Foi sempre assim... se sobrasse tempo... e poucas vezes sobrou - entre trabalho e casa e umas constipações das crianças que procurei não levar para o lar, o tempo ia passando e nem sempre vi a minha Avó as vezes que eu queria e as muitas mais que ela merecia.

Entrei na escola com o João e deixei-o voar para a sala de aula. E, do nada, sem aviso prévio, quando estava a entrar na escola do Henrique, o meu telemóvel tocou, a uma hora a que a minha Mãe nunca ligara anteriormente. Apenas quando atendi, ao ouvir uma voz soluçante e fragmentada, senti o anúncio do fim do dia (e era ainda tão cedo...). A minha Avó, que iria ver horas mais tarde, tinha partido há minutos, numa viagem com rumo incerto para quem não conhece o que existe depois da Vida.

Não falei com a minha Mãe mais do que 20 segundos - nenhum de nós conseguia falar. Atordoado, fiquei mais uns minutos com o Henrique para não lhe estragar o tão esperado Dia do Pai. Procurei - ainda que sem sucesso - esconder a frustração e a angústia de estar tão longe da minha Avó neste último momento, nesta partida. (No meio da natural excitação, estou certo que o Henrique nada notou...)

Acabei por sair e rumei ao lar, onde encontrei a minha Mãe no quarto em frente ao da minha Avó. Sem pensarmos, sem palavras, rompemos os muros da discórdia e corremos num abraço mútuo, forte, triste mas tranquilizador, salpicado da dor e da saudade acabadas de chegar. Chorei, com saudades da Avó que tive e que até há pouco tivera, com saudades da Avó que mesmo depois de tanto envelhecer me acompanhou, de mão dada, com tanto carinho que nada mais precisaria fazer para eu a adorar o resto da minha vida.

Chorei, com a cara curvada pela dor de não ter chegado mais cedo, de não ter encontrado tempo para além das sobras, de não ter dedicado mais a quem tanto se dedicou. Senti, numa despedida forçada - ou melhor, numa despedida não realizada e que jamais poderei concretizar - a distância do infinito entre os dois quartos que moravam frente-a-frente no corredor. Por entre a porta quase fechada vi, sobre a cama da minha Avó, um corpo tapado por um lençol, revelando formas que só por sorte se adivinhariam humanas. Pensei entrar - queria entrar -, e despedir-me da minha Avó com um beijo lento, tão longo quanto conseguisse, para lhe mostrar a adoração e respeito que sempre lhe tivera. Tentei, mas não consegui!... Sob o medo de ver uma imagem distorcida da que queria guardar e o de sentir ao toque uma pele arrefecida, paralizei no corredor e não consegui entrar...

As senhoras do lar disseram que a minha Avó estava serena, tranquila, entre a lentidão de quem gostava de se levantar tarde e a imagem apaziguada de quem está, de mão juntas ao peito, a rezar a Deus. Contaram que entre três passagens matinais pela porta do quarto, nada indicava desconforto ou agonia, apenas calma e sossego. (Espero que, na solidão da despedida, este seja um retrato fiel dos últimos momentos da minha Avó e que, por fim, tenha encontrado o Deus a quem tanto rezava.).

(...)

Neste dia marcante, os presentes que os meus filhos preparam com tanto carinho e me entregaram com tanto orgulho e ternura, trouxeram-me dois segundos de paz, de conforto, de certeza. Os outros segundos, longos, tantos, deixaram-me confuso, triste, incrédulo do roubo que sofri sem sequer ter tempo para me tentar defender.

Não fui capaz de entrar no quarto, de te ver, de te beijar, de te visitar como tinha planeado e te contar as mais recentes aventuras e piratarias do João e do Henrique. Mas sabes - sempre soubeste! - que quando te dava a mão e te fazia festas na pele - tantas vezes em silêncio - te estava a beijar lentamente, longamente, respeitando o tempo infinito que a partir de hoje é teu!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Keep smiling!...

Keep smiling

(20130921 @ Jardim da Estrela)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Ao(s) Jorge(s)!

Por sorte tivemos a oportunidade de visitar o Mercado Central... à procura das raízes humanas tantas vezes dispostas nestes centros económicos das cidades. No mercado havia de tudo, abundando vegetais, sementes, castanha (de cajú), malaguetas e outras especiarias ou iguarias.

Mas não foi a comida que me chamou a atenção. Foram os olhos pretos, pequenos e rasgados do Jaime, um reguila de quatro anos, que me abraçou com um sorriso contagiante e que deu à máquina fotográfica um minuto de atenção. O Jaime sorriu, brincou comigo, e depois correu - fiquei na dúvida se era suposto correr atrás dele e brincar à apanhada...



Acabei por ficar onde estava e deixei-o correr entre os corredores do mercado, percebendo que ele os conhecia de cor, de tantos passos lá dados. Virei-me para o lado e vi outro trio, mais velho, mais "duro", mais batido pela vida de menino de rua. O da esquerda, apresentava-se possante e confiante, marcando claramente o espaço territorial que sem discutir lhe reservei, conservando a distância que me permitia interagir com ele sem o ofender, sem o perturbar. À direita, debaixo de um boné de pala, um olho espreitou e, quando provocado, sorriu, envergonhado, ainda escondendo o resto de si.

Sobrou o Jorge, deitado, meigo, descalço, estranhamente feliz, indiferente ao cenário envolvente e às amarguras da vida. O Jorge, protegido pelo seu irmão mais velho - à esquerda - pouco falava português, recebendo várias traduções do irmão para responder às minhas perguntas.



Comecei pelo nome, apresentei-me e estendi a mão. Reparei em alguma surpresa, alguma impreparação para este acto aparentemente raro ou desconhecido; mas o aperto lá ocorreu. Perguntei-lhe porque não tinha sapatos e o sorriso fugiu, dando lugar à tristeza mais sincera que vi nos últimos tempos - tinham-lhe roubado os chinelos, afirmou, escondendo-se com vergonha no silêncio. Sem dramatizar disse "grande azar, pá" e perguntei-lhe "quanto custam uns chinelos?". Abrindo uma brecha no silêncio ele respondeu-me baixinho "cinquenta meticais".

Perdi-me no tempo, repetindo vezes sem conta um cálculo básico e elementar: "50 MTS a dividir por quarenta dá 1.25 EUR - não!, não pode ser! 50 MTS a dividir por quarenta...". Sim, apercebi-me da monumental insanidade daquele momento e de como alguns problemas são simples de resolver. Distanciei-me, aproveitando que alguém me chamara, vasculhei as moedas nos bolsos e vi 70 MTS por lá esquecidos, cunhados com 5 e com 10. Regressei em direcção ao Jorge, debrucei-me sobre ele e disse-lhe "aqui tens!, cinquenta meticais para comprares uns chinelos!", enquanto lhe passava as quatro moedas de dez e duas moedas de cinco. O Jorge, meio incrédulo, contou o dinheiro e, para meu espanto, não sorriu - olhou para mim e num português atrapalhado mostrou-me uma moeda de dois meticais, no lugar da moeda de cinco que julguei ter-lhe dado. Troquei a moeda de dois por uma de cinco e, enquanto dizia "que tonto que sou!", vi o Jorge levantar-se do chão e voar para fora do mercado. "Nunca mais o vejo", pensei com pena.

Distribui as moedas sobrantes pelos restantes miúdos, deixando ao pequeno Jaime a moeda de dois meticais, pensendo que sendo o mais novo não reparia ou não daria importância - e funcionou. Voltei ao centro do mercado e com uma sensação de satisfação pelo Jorge e de profunda convulsão emocional pela forma tão simples - e barata - de melhorar a vida de uma criança, perdi-me em divagações evasivas enquanto os meus olhos se perdiam nas pessoas e nas coisas.

Peixeiras...


... nas bancas de sementes e frutos ...



... nas vendoras distraídas ...



... e nos legumes cansados de não serem comprados.



Nisto, o Jorge e o irmão surgem a correr na minha direcção. O Jorge agarra-me na mão e diz-me "olha!" e sem perder um segundo baixei os olhos e vi-lhe os pés, afastados do chão frio e sujo, a flutuar sobre uns chinelos novos, imaculados, coloridos e quase tão brilhantes como os seus profundos olhos. Ele estava radiante, e o meu coração fez-lhe companhia, para que não passasse mais um momento só. O irmão (acho que não lhe cheguei a perguntar o nome), abraçado ao Jorge, protector e cúmplice, disse-me com postura de homem feito: "tu és gente boa!" e estendeu-me a mão. Senti-me pequeno ao pé daquele gigante, daquele lutador que descansou as rugas contraídas por saber o irmão melhor.

Deram-me outro aperto de mão e partiram, de regresso a uma vida que engana a tristeza e a miséria com sorrisos rasgados retirados não sei bem de onde. E nuns minutos roubados ao tempo, e com pouco, tão pouco, ganhei tanto, tanto mais do que dei!...

3-em-1

Hoje foi um dia cheio de actividades, de reuniões e de experiências. Como nos outros dias desta visita tivemos de passear a pé e de carro, e continuámos a ver gentes e situações surpreendentes.

Nas costas de uma carrinha de caixa aberta, vemos três ícones da Cidade de Maputo - um telemóvel (tanta gente com um...), um sorriso sincero e amigável, e as cores de Moçambique, vestidas, pintadas ou documentadas em outdoors gigantes numa qualquer parede da cidade.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Maputo by day

Ontem não tivemos tempo para ver a luz de Maputo. Hoje, para compensar, o despertador tocou às 6h45 - a recepção achou melhor ligar quinze minutos antes das 7h00 combinadas -, indo o Sol já bem alto, longe do horizonte que indica o oceano. O Sol nasce pelas 5h30 e combinei com ele um encontro para Sábado, por cima do azul do mar.

Acordámos no Southern Sun Maputo e, de malas não desfeitas, tomámos banho, descemos para o pequeno almoço (bem bom!) e despedimo-nos do simpático hotel para rumarmos ao Polana Serena Hotel, na Avenida Julius Nyerere, palco de alguma cultura tradicional.



Numa rápida tocata e fuga, deixámos as malas na recepção (o hotel estava cheio e o check-in só poderia ser feito a partir das 14h00) e fomos para a primeira das muitas reuniões do dia, na Baixa da cidade. À saída, o simpático porteiro deixou-se captar com todo o seu esplendor, toda a sua história, todas as suas histórias...



Já na zona baixa de Maputo, começamos a ver a Cidade como ela é, viva, dinâmica, cheia de movimento e de olhos atentos passagem de "tão distintas figuras".



Na Praça dos Trabalhadores, onde habita a estação dos CFM - Caminhos de Ferro de Moçambique -, o cenário era de agitação, num frenesim sem agitação nem confusão, mas ainda assim frenesim.



As cores de Moçambique tomam forma nas suas viaturas oficiais, os táxis e as motoretas (esqueci-me do nome local deste espectacular modo de transporte individual...).



Mas é nos autocarros - os chapas - que a maior parte das pessoas se desloca: sejam os oficiais, os semi-oficiais ou os assumidamente informais, eles gerem a mobilidade da população, com cuidados de segurança muitas vezes preocupantes... (não quero deixar de assinalar que o "pendura" do Mahindra é, certamente, um cidadão informado).



Na hora da refeição, ao meio-dia solar e do relógio, o cenário é de uma tranquilidade inquietante - comer na rua é normal, longe dos restaurantes inacessíveis à maioria / quase totalidade da população.



A comida pode vir de casa ou ser comprada no local, tirada quente de uma monumental e industrial panela para uma marmita descartável.



Outra opção é ir ao mercado, como o Mercado do Povo mesmo em frente do Conselho Nacional, onde se pode comer o prato que perfuma (intensamente) o ambiente.



Ainda no mercado, para quem prefere preparar comida em casa, há todo um manancial de elementos nutritivos, como malaguetas, camarões fritos e pó de amendoim.



A beleza desta terra é a simplicidade com que a vida acontece, aparentemente sem tabus, sem demasiada pressa, sem estresse...



No final de um dia de trabalho, em que visitámos as zonas mais saturadas de Maputo, conseguimos fazer um pequeno desvio para ver as obras e os artistas do Núcleo de Arte, onde o Kass Kass deixou-me captar a sua "fotografia pictórica" de uma feira semanal.



No final do dia, no final da luz solar, voltámos ao hotel, subimos para os quartos, descansámos uma hora (deu para tirar a roupa da mala e pendurar os tecidos vincados nos cabides) e voltámos a sair de gravata, rumo à casa do Sr. Embaixador, que gentilmente nos recebeu e nos acolheu, não só fisicamente mas ao projecto e parceria que viemos plantar.



O jantar passou a correr, fruto de tão boa conversa e companhia, e voltámos (de vez) ao hotel. A noite pediu mais um pouco da nossa companhia e, acedendo, ficámos a conversar nos sofás virados a Oriente, de novo a olhar para o Índico, comentando o dia e aproveitando o momento descontraído para .... descontrair.